sábado, 10 de dezembro de 2011

Aos sensíveis homens


Elisa Lucinda

 
Ainda é corrente no conteúdo do discurso feminino nos tempos de agora, um pensamento que não considera que a sensibilidade masculina seja uma qualidade do masculino. Eu explico: há  mulheres que dizem "fulano é tão sensível, seu lado feminino é bem desenvolvido". Sim, uma vez vindos do amor de um homem e de uma mulher temos o X e o Y em nós, mas cada uma dessas misturas em cada gênero, por serem um "planeta" orgânico e hormonal diferentes, geram aí, neste contexto específico, neste nicho, suas particularidades. Dizer que o lado bom de um homem é o seu lado feminino é uma espécie de "clitoriocracia"; é  não considerar a linda sensibilidade masculina que tanto conhecemos. Não fosse assim, onde catalogaríamos os românticos, os que oferecem flores, os que não medem esforços para amar nossos filhos e aperfeiçoar a relação com seus amores. Amigos, irmãos, namorados e outros graus de afeto e ligação que temos com o ser humano macho nos revela as diferentes sensibilidades de cada um. Tudo isso é pra dizer que amo homens cuja sensibilidade não o assusta nem enfraquece. Outro dia ouvi uma história de um amigo baiano que se apaixonara por uma mulher que estava grávida de outro. Esse homem que a encontrou no segundo mês de gravidez, prenha de um outro que não a queria, amou-a sem nenhum julgamento. Apaixonou-se por ela oferecendo-lhe respeitos  só concedidos às virgens. Nenhuma lei machista fora capaz de influenciar sua escolha. E mais, amou essa criança, beijou o ventre em que ela crescia e cobriu-lhe com o manto da paternidade irreversível. Pois, à  exemplo de Deus, um pai é sempre eterno. Essa história que vos conto já tem quase duas décadas. O menino é um rapaz que até conhece o pai biológico, mas é com o pai que amou sua mãe com ele presente no ventre que esse fruto fez o laço. Em nome desse pai se criou homem sensível, herdando o DNA afetivo masculino, mais forte que o sanguíneo. É certo que vocês leitores devem conhecer inúmeras histórias de pais maravilhosos; há os que engravidam prostitutas, com elas se casam e inauguram nelas mulheres que elas queriam ser. Há os que, por serem mais amorosos e mais desimpedidos do que a mãe de seus filhos, foram para estes, a fundação do amor, o império do carinho, a educação pelos sentimentos e pelos sentidos. Há mães secas e pais melosos. É errôneo pensar que não há homens capazes de cuidar de assuntos delicados que envolvem um ser humano. Cabe a nós que criamos as crianças que um dia serão pais de outras, ensiná-las a cuidar das "pequenas grandes coisas do mundo"'. Menino e menina precisam brincar de boneca para que quando cresçam possam alimentar e trocar as fraldas de seus pinguinhos de gente.  A sociedade precisa ficar de olho nisso. Em algum lugar estamos errando porque continuamos a produzir assassinos de mulheres, pais broncos e obtusos, maridos agressivos e grosseiros e etc e tal. Conheço famílias de hoje em que são as meninas que arrumam as camas dos meninos e nunca vice versa, embora sejam irmãos. São as meninas que servem os pratos dos meninos na  ausência da  a mãe, como que sendo preparadas para serem mães dos seus mimados maridos mais tarde.

Hoje eu preciso dizer isso. Pretendo colocar no proscênio do senso comum este homem que não é violento, não se sente fraco porque chora, muito menos é covarde quando compreende uma situação e se permite voltar atrás. Não podemos nem devemos deixar os futuros homens órfãos de uma educação amorosa  que lhes desenvolva a sensibilidade  como se esta ferisse a condição masculina e reduzisse sua bravura. Não. Pelo contrário, feliz da coragem que tem o amor como critério. Seu portador tem mais chances de ser justo e colaborar na construção de uma cultura de paz. Fui criada por um pai guerreiro que, embora nascido no começo do século passado, nos encheu de carinho, de  estórias criativas na hora de dormir, e cuidou para que a compaixão, alturismo e o interesse pelo bem estar do próximo fossem os pilares de nosso convívio no mundo. Um pai será sempre eterno em sua  função. Em nome deste pai e seu ensinamentos o mundo gira desde o primeiro  homem. Minha literatura é herdeira do coração de meu pai.
De Elisa Lucinda

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A prostituta sagrada


Vários estudiosos e outros especialistas deixaram muito de nós familiarizados com expressões como ''união sagrada" e "casamento sagrado". Mas prostituição sagrada? Por favor, ajude-nos a entender esse conceito.
Escavadas das ruínas das remotíssimas civilizações na Babilônia e na Suméria, antigas tabuletas de argila, pinturas em vasos e estatuetas datando de cerca de 18000 a.C. descrevem ou representam mulheres que praticavam o ato do amor no Templo do Amor. Esse era um ato de adoração, e a sacerdotisa da deusa do amor era uma prostituta sagrada. Ela acolhia com prazer o estranho cansando do mundo na intimidade desse lugar santificado e oferecia-se e ele sob a égide da deusa. Na presença da deusa divina, esse ritual era transformador. A prostituta sagrada, talvez uma iniciada, podia vivenciar a plenitude da feminilidade; sua natureza feminina despertava para a vida. O elemento do amor divino agora residia nela. O estranho também vivenciava os mistérios do sexo e da religião que acompanhavam a regeneração da alma. Esse ato sexual sagrado era considerado um ritual de hieros gamos, ou o casamento sagrado, porque representava a união espiritual do divino com o mortal.
Em outros lugares antigos, o ritual do casamento sagrado era vivenciado de maneiras ligeiramente diferentes. Na comemoração do Ano-novo, chamada de "Determinação do Destino", as pessoas cantavam hinos à deusa: "O rei vai de cabeça erguida para o colo sagrado, / Ele vai de cabeça erguida para o colo sagrado de Inanna." Essa era a deusa suméria do amor e da fertilidade, que assegurava a fecundidade da terra e a vida humana com sua bênção de amor e a arte de fazer amor. O rei, representando o deus, e uma prostituta sagrada escolhida, representando a deusa, eram levados ao zigurarte, de forma que seu acasalamento assegurasse a fertilidade da terra. As emoções humanas dela e suas energias criativas, físicas, incorporavam o pessoal e o suprapessoal. Ela estava em contato com poderes regeneradores básicos, e desse modo, como a deusa encarnada, assegurava a continuidade da vida e do amor. A prostituta sagrada era o receptáculo do casamento sagrado, conforme retratado recentemente tanto em O código da Vinci quanto no filme De olhos bem fechados, de Kubrick, reflete essa sensibilidade.
Em civilizações posteriores, Inanna e outras deusas tornaram-se mais diferenciadas; uma deusa era identificada com a fertilidade ou com a Deusa Mãe, ao passo que outra era cultuada pela beleza sexual feminina. Os gregos, por exemplo, conheciam a primeira como Deméter, ao passo que Afrodite era venerada pelo esplendor da beleza física, pelo amor, pela paixão e pelo deleite. A deusa do amor e a deusa da fertilidade eram reverenciadas como o feminino divino.

Por que se originou o conceito de prostituta sagrada? Como ele era trazido na realidade da época?
Julgava-se que as mulheres que executavam as tarefas subalternas nos templos estivessem em estreito relacionamento com a deusa e, portanto, fossem dotadas de poderes para conceder bênçãos. Também se pensava que esse ritual talvez fosse um vestígio de cerimônias primitivas mais antigas, quando o chefe da tribo deflorava a virgem antes do casamento dela. Outra hipótese é a de que, como a deusa e seu consorte conferiam fertilidade à terra, o ato deveria ser imitado pelas mulheres que buscavam a bênção dela.
Em diferentes culturas, em épocas diversas, as mulheres tornaram-se prostitutas sagradas. Isso não era uma desgraça, e sim uma honra. Elas eram consideradas "as esposas do deus". Em certos lugares, apenas mulheres de descendência nobre podiam participar. Em Tebas, a esposa do sumo sacerdote era denominada "concubina suprema". O historiador grego Heródoto, do século III a.C., escreveu: "O costume babilônio [...] obriga toda mulher do país, uma vez na vida, a comparecer ao templo do amor e ter relações sexuais com algum estranho." Nos templos de Afrodite em Érix, Corinto e Comana, de acordo com Estrabão, geógrafo, filósofo e historiador grego do século I, as prostitutas sagradas chegavam aos milhares. Concedia-se-lhes status social e elas eram educadas. Em alguns casos, permaneciam iguais aos homens em termos políticos e legais por causa de seu direito de herdar terras. Acreditava-se que, como a deusa trazia seus dons do amor - as artes de fazer amor, da paixão e da alegria - de seu reino celestial para os mortais cá embaixo, a prostituta sagrada, como sacerdotisa da deusa, partilhava essa bênção com o gênero humano.

In: A verdadeira história de Maria Madalena: OS SEGREDOS DA MULHER MAIS INSTIGANTE DA BíBLIA, de Daniel Burstein e Arne J. de Keijzer - p. 90, 91

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O vestido

Não existe nada tão belo quanto uma mulher de vestido. O vestido anuncia as formas, o desenho, o esboço de suas curvas verdadeiramente nuas. Antes de tudo, deve conseguir-se um misto de sensualidade e curiosidade para que o homem se excite em tentar enxergar o mundo de prazeres que se encontra atrás das linhas do tecido.

Portanto, o vestido deve respeitar a uma simples e singela dialética: não deve exibir o corpo da dama em demasia, nem ocultá-lo também em demasia. Deve existir um equilíbrio para que se atice a curiosidade masculina, sem desestimulá-la. Deve haver ao menos uma pequena parte de todo o pano que faça o homem suspirar baixinho, como o início de cerimônia de boas-vindas.

O primeiro convite se encontra na cor do vestido. A mulher deve ter sempre em mente que qualquer exagero em tentar chamar uma atenção maior que o próprio ego pode resultar em fracasso na conquista. Esse aviso vale para qualquer outro detalhe da roupa. Devem-se evitar cores fortes, que ofusquem a visão e os outros sentidos. Cores muito claras podem soar infantis e afastar homens maduros. O branco sempre remete a uma sensação de paz e dificulta novas conquistas, porém mantém as antigas. Se busca ser fatal, cores escuras sempre são as melhores armas, partindo do vermelho ao preto, sendo esse o estágio final de sedução, a personificação da sensualidade feminina.

E, ao falar das partes que devem ser deixadas à mostra ou não, comecemos pelos braços. Vestido que esconde os braços da mulher é como beijo sem amor: desestimulante. De Machado de Assis a Neruda, os braços femininos sempre foram a delícia da literatura. É nos braços, nos seus movimentos leves e no perfume junto ao ombro, permeando o pescoço, que o homem há de morrer ou simplesmente encostar a cabeça para fazer as honras do seu desejo instintivo.

Dos ombros aos seios, as alças do vestido devem se insinuar ao homem. Um vestido sem alças já perde um dos elementos de sedução. O vestido deve funcionar como o segundo corpo da mulher e as suas partes devem sempre se exibir com doçura. Uma alça fina, que oferece uma estranha impressão, quase um déjà vu, de estar caindo pelos ombros, é como um pequeno laço sendo passado em volta do coração de quem se pretende conquistar.

As costas são o cartão definitivo de entrada no corpo da mulher. E mulheres com costas belas, com insinuações provocantes, com curvas estonteantes, são donas completas de si e do seu homem. A ousadia é uma possibilidade tangível na hora de imaginar-se dentro do vestido. À medida que o corte do vestido se aproxima do cóccix, o homem se entrega à luxúria e deixa-se imaginar as mãos invadindo levemente a lateral do corpo feminino e os dedos tocando sua cintura, tão suaves quanto o vestido.

Quanto às pernas, o clímax da sedução para as mulheres elegantes e para os homens que sabem apreciá-las, o vestido deve tratá-las com cuidado e precisão. Imagina-se o corpo da mulher como uma carta de amor ao vento, onde qualquer falha de curso pode desviar irreversivelmente o seu destino. As coxas não devem nunca estar à mostra. Seria a morte da conquista. O ponto G está na curva entre a coxa e a panturrilha. A hora H é o cruzar de pernas ao sentar-se. Se, ao entrelaçar esses dois fatores, a mulher consegue proporcionar uma visão milesimal e milimetral das suas coxas, o resultado é inevitável: o homem enlouquece de paixão.

O vestido é uma poderosa manilha do universo feminino, um belo convite para o encontro dos sexos. Os acessórios não devem seguir estradas diversas daquela traçada pelo vestido. O perfume, o calçado, a bolsa e as jóias devem contribuir, mas nunca devem ser os protagonistas da sedução. O vestido deve se ajustar ao corpo da mulher, mas não deve apertá-lo e tirar a liberdade e a graciosidade dos seus movimentos. O vestido deve sorrir junto com a boca e dançar conforme a música e o ambiente. Os seus traços reforçam a beleza do corpo feminino e águam os sentidos masculinos, contanto que se saiba lidar com a infinita gama de modos para cortar e entrecortar as linhas. E, para que o vestido realize seu papel fundamental, ele não deve ser mais mulher do que a própria, mas apenas ser o palco de sua encenação. Antes de roubar a cena, o vestido deve apenas ser o cenário para sua conquista.

O vestido deve ser uma caricatura paradoxal da mulher: salientar tudo o que for divino em seu corpo e em sua alma.

Autoria desconhecida
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